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UNIVERSIDADE CORPORATIVA – O PREÇO DO IMOBILISMO DA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA

Por Luis Carlos Mello

Há uns poucos anos, a Volkswagen anunciava a criação da AutoUni, ou Universidade do Carro, com sede em Wolfsburg, na Alemanha, a qual, diferentemente do modelo-padrão das escolas superiores, não teria como objetivo básico difundir conhecimento e promover a realização de pesquisas, mas formar e aperfeiçoar profissionais para virem a ser a futura geração de gerentes da empresa. Inicialmente destinada apenas ao pessoal da Volkswagen, a AutoUni se propunha a acolher, num segundo momento, funcionários de empresas-parceiras e em seqüência interessados em geral.

Segundo o noticiário que cercou na ocasião a comunicação dessa iniciativa da Volkswagen mundial, seriam investidos, só para construção do campus, 50 milhões de euros, destinando-se mais 40 milhões para o funcionamento da AutoUni nos seus primeiros cinco anos. Segundo o seu presidente e fundador, Dr.Walther Zimmerli, a iniciativa era de natureza eminentemente estratégica, cujos resultados somente seriam possíveis de aferição em longo prazo.

O fato era em si era histórico, isso porque estabelecia uma evidente diferença entre os esforços de treinamento convencional a que sempre se dedicaram em realizar os integrantes do sistema automotivo, e os de forte cunho educacional e inevitavelmente cultural que marcam o conteúdo da Universidade do Carro.

Ao escolher essa pioneira iniciativa tão representativa dos propósitos de uma verdadeira universidade corporativa, nos ocorre indagar por que, embora a indústria automotiva represente, aqui ou em qualquer economia em que a mesma se insira com maturidade, algo como 10 a 15% do PIB, não tenha ainda provocado o interesse das áreas corporativas e do sistema educacional independente em fazer algo com a mesma importância e dimensão da que se impôs fazer a Volkswagen mundial.

Este vácuo de iniciativas tem impedido que o conhecimento da tecnologia e dos processos de gestão peculiar à atividade automotiva se democratize na direção da arregimentação de um número cada vez maior de talentos e de vocações. Uma das conseqüências desse, podemos mesmo chamar, imobilismo educacional é a verticalização do desenvolvimento e a transferência do conhecimento restrita apenas aos limites da intimidade dos diversos integrantes do sistema. Por extensão pode-se, também, afirmar que os gigantescos aportes de investimento no desenvolvimento de novos produtos, notadamente na área das montadoras, são exigidos nessa dimensão porque praticamente todo o conhecimento, assim como sua materialização experimental e final, fica restrito a cada uma delas isoladamente.

Como se sabe custos de pesquisas e de desenvolvimento – igualmente pesados e sensivelmente estratégicos, deles dependendo a própria sobrevivência competitiva das empresas – resultam em preços finais ao consumidor mais elevados e, consequentemente, menor acessibilidade ao produto, vendas abaixo do ponto de equilíbrio, maior ociosidade das fábricas, etc., entre outros fatores negativos, realimentando o círculo vicioso que explica não haver a indústria ainda ultrapassado o teto de 70 milhões de veículos/anuais, contra uma capacidade instalada estimada em mais de 90 milhões.

As dificuldades extremas pelas quais o sistema, por inteiro, passa atualmente, embora fortemente vinculados à crise financeira global, põem a nu também às lacunas de boa gestão que acometem o sistema automotivo em sua integralidade. E boa gestão passa naturalmente por um aprendizado que coloque numa mesma esfera de identidade os esforços sistêmicos da academia e da área operacionais, de forma a que se formem profissionais que sejam não apenas especialistas, mas generalistas igualmente.

Espera-se que essa crise provoque uma verdadeira e dura reflexão sobre como contribuiu para este momento tão penoso a atitude menos comprometida, no passado, dos dirigentes de empresas na formação do seu pessoal. Para algumas já poderá não haver mais tempo, mas para outras.

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